Nossa economia, sempre fechada, baseada na agricultura, e via de regra, dificultando empreendedores de fora, evitou que o trabalhador criasse uma mentalidade, uma consciência de classe, o que torna nossa comunidade anacrônica em meio às atuais relações de trabalho. A conjuntura socioeconômica e cultural de nosso município criou para o trabalhador o “mito” de que o patrão é quem deve direcionar os rumos, as melhorias e as condições de trabalho. Transferiu a responsabilidade para o patrão, “docilizando” o operário.
Tal conjuntura criou sindicatos fracos e vinculados ao patrão, como é o caso do SINTESPA, que muito depende da boa vontade do empregador. Apesar de estar engatinhando ainda, que seja pela própria motivação do servidor, em termos de ação, percebemos algumas melhoras. Sim, a manifestação foi condicionada pelos servidores insatisfeitos, talvez mais que pela vontade do SINTESPA, mas seria contraditório dizer que o sindicato não faz nada, já que nós somos o Sindicato. Ainda na contramão dos movimentos sociais é contraditório manter um sindicato que depende do patrão. A diretoria deveria rever essa condição, talvez aumentando a contribuição sindical, o que certamente não agradaria, mas poderia ser posto em análise.
Voltando ao trabalhador que é o mais prejudicado nas relações de trabalho, não devemos lhe imputar totalmente a culpa da inércia em relação à sua condição de explorado. O Modo de Produção Capitalista revestiu-se de alegorias que visam amenizar e mascarar as relações de trabalho. A Psicologia do Trabalho e alguns assistencialismos vulgares impedem que o proletário se insira na condição de explorado. Cria-se panoptismos, em que o discurso discretamente leva um trabalhador a vigiar outro, facilitando assim, uma secção que individualiza o trabalho e falsamente faz o trabalhador sentir-se independente das relações daquele ambiente. Seu sucesso, sua promoção, dependerá dele mesmo. Dividir para conquistar, sutilmente e em pequenas dosagens contínuas.
Partindo destas premissas, creio que o maior problema dos sindicalistas - claro, daqueles que queiram fazer mudanças - é inserir no trabalhador o sentimento de construtor de sua própria História, de sujeito ativo e pertencente a um organismo do qual ele é parte fundamental e agente transformador. Tocar na ferida e fazer entender que seja médico ou serviços gerais, se recebe salário, é proletário e encontra-se na situação de explorado. Alguns vão torcer o nariz, devido à elitização de algumas profissões, e no caso de um sindicato, como o SINTESPA, que abrange várias carreiras, é tarefa árdua, não direi impossível, afinal até semana passada era impossível mobilizar 500 servidores.
Não tenho a pretensão de achar que o trabalhador brasileiro chegue ao nível intelectual do operário francês, por exemplo, que tem na sua estante pelo menos um livro de Sartre. Há uma distância cultural muito grande, e já teríamos de entrar na questão do ensino brasileiro. Tenho a singela pretensão de fazer os atuais e futuros sindicalistas de nossa comunidade entenderem a complexidade das relações de trabalho, as quais se complicam ainda mais com sindicatos de servidores públicos que já envolvem a política. Mas sabemos também que o ser humano é um ser político; portanto, desvincular política do ser humano é quase tentar extinguir a existência do Homo Sapiens.
O primeiro passo é criar uma identidade própria, arraigar-se como sindicato sem assistencialismo ou paternalismo e fazer o mesmo com o servidor. Creio, senhores e senhoras, atuais e futuros sindicalistas, que a semente foi lançada, resta aos senhores e senhoras saberem cultivar. Porém, cultivar para todos e saber repartir a colheita.
Estamos fazendo História! Estamos acordando! Viva o trabalhador, viva o Servidor Municipal de Araguari!
“A necessidade de uma história mais abrangente e totalizante nasce do fato de que o homem se sente como um ser cuja complexidade em sua maneira de sentir, pensar e agir, não pode reduzir-se a um pálido reflexo de jogos de poder, ou de maneiras de sentir, pensar e agir dos poderosos do momento.” (Peter Burke)
Servidor que certamente receberá advertência por ter participado da paralisação do último dia 3.



